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A JUVENTUDE DAS PERIFERIAS COMO ALVO DA VIOLÊNCIA: UMA ANÁLISE SOBRE ENUNCIADOS DIFUNDIDOS PELA SOCIEDADE BRASILEIRA

A JUVENTUDE DAS PERIFERIAS COMO ALVO DA VIOLÊNCIA: UMA ANÁLISE SOBRE ENUNCIADOS DIFUNDIDOS PELA SOCIEDADE BRASILEIRA

10/05/2020 07h02
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Por: faladirceu
A JUVENTUDE DAS PERIFERIAS COMO ALVO DA VIOLÊNCIA: UMA ANÁLISE SOBRE ENUNCIADOS DIFUNDIDOS PELA SOCIEDADE BRASILEIRA

Foucault (2003a) analisa a articulação de discursos que se configuram como "lendas" na vida em sociedade. Tais "lendas" se produzem por razões diversas e são comumente apresentadas com "verdades", o que resulta em "um certo equívoco do fictício e do real" (p. 207). Logo, partimos da perspectiva de que parte dos enunciados que circulam em determinados discursos e que implicam na correlação de jovens moradores das periferias a pressupostos pejorativos, se apresentam como "lendas" que contribuem na delimitação de padrões normatizantes na população brasileira.

O conceito de enunciado remete a um conjunto de saberes que se produzem nas entrelinhas dos discursos vigentes em um determinado tempo histórico. Para Foucault (2012, p. 105), o enunciado deve ser analisado na estreiteza e singularidade de sua situação, ou seja, nas condições de sua existência, na fixação de seus limites da forma mais justa, no estabelecimento de suas correlações com outros enunciados. O enunciado, portanto, se constitui de modo localizado, materializado, datado, múltiplo e variável, sendo que "para que se trate de um enunciado é preciso relacioná-lo com todo um campo adjacente." (Foucault, 2012, p. 118).

Compreendemos que "há sempre, na história, uma pluralidade de sentidos que precisa ser pensada como complexo de sucessões e de coexistência de forças" (Cardoso, 2005, p.112), um conjunto de saberes que articulam regimes de verdade na vida em sociedade. Deste modo, analisamos enunciados que implicam em processos de classificação e de criminalização, o que contribui para potencializar o risco de parcela da juventude brasileira a práticas de extermínio recorrentes no país.

Como percurso metodológico para subsidiar esta problematização, nos respaldamos na "análise documental" (Pimentel, 2001), o que possibilitou a problematização de documentos de domínio público segundo os objetivos da investigação proposta. A análise documental se constitui como estratégia de pesquisa balizada pela pesquisa qualitativa, possibilitando a análise de diversos materiais compreendidos como documentos: materiais escritos, estatísticas, elementos inconográficos.

Com o objetivo de elucidar a análise proposta, serão também apresentados ao longo do artigo trechos de reportagens veiculadas nos jornais "Folha de São Paulo", "O Globo" e "Folha de Londrina", bem como na revista "Veja". Nos chama a atenção o fato de esses aparatos midiáticos se apresentarem como ícones da imprensa conservadora no Brasil, principalmente a revista Veja, que tem sido incansavelmente propulsora de 'verdades' sobre fatos ocorridos no país.

Inicialmente, apresentaremos algumas condições subjetivas e sociais que convocaram a investigação proposta. Na continuidade, problematizaremos a construção do retrato do jovem "anormal", em um diálogo com parte da obra de Michael Foucault (2010), bem como a produção do retrato do jovem "desumano", em diálogo com parte da obra de Giorgio Agamben (2002). Na conclusão, ensaiamos uma articulação entre tais noções e as cenas de extermínio de jovens residentes das periferias no Brasil e afirmamos a importância da existência e circulação de movimentos de resistência que insistem em tonar visíveis as violências descritas, bem como em compor outros marcadores discursivos relacionados à juventude em questão.

 

Condições de Possibilidades: Construindo um Percurso de Pesquisa

As inquietações que implicaram no presente artigo emergiram, em parte, das vivências experimentadas em nosso cotidiano de trabalho como psicólogas que atuam na Política de Assistência Social de uma cidade de médio porte no Estado do Paraná, mais especificamente em territórios circunscritos como periféricos. Nestes espaços geopolíticos, nos deparamos com discursos pejorativos associados à juventude, que resultam na exposição desta a práticas de violência e de extermínio.

Demarcados por um estigma, uma marca de diferenciação, estes jovens são assinalados enquanto uma parcela da sociedade sob a qual a lei que vale é a "lei da bala", e para os quais, muitas vezes, existem somente dois destinos de vida possíveis, "cemitério ou cadeia", como muitas vezes ouvimos nas intervenções realizadas. Segundo Goffman (1993), o estigma está comumente relacionado a um processo de construção de significados que se articulam na vida em sociedade. Ao sujeito (ou grupo) estigmatizado é conferida uma série de atributos, que o circunscreve a uma noção estereotipada e desviante de existência.

Em nossa trajetória de trabalho, comumente nos deparamos com os efeitos letais da circulação de estigmas correlacionados a juventude de periferia, como o relato de um jovem assassinado em sua casa a tiros, na presença de sua mãe, quatro irmãs e padrasto; a evidência de dois jovens assassinados na rua onde residiam em um cenário de suposto conflito com a polícia; e a informação da jovem assassinada a pedradas em um viaduto localizado em região periférica da cidade. No mesmo período da constatação dessas mortes, vivenciamos a morte de uma amiga de 25 anos, vítima de um tiro disparado por um policial militar durante uma blitz.

Ainda na época destes acontecimentos, pulsava a questão de que o extermínio da jovem amiga branca, de classe média e artista - morte reclamada e vida reivindicada por um grupo considerável de pessoas - ultrapassava o campo das nossas relações pessoais, para nos convocar a pensar nos assassinatos cometidos contra jovens residentes nas periferias no país - mortes geralmente subnotificadas, silenciadas e/ou legitimadas por grande parte da população.

Ressalta-se, ainda, o contraste entre as formas de visibilidade midiática vivenciadas em cada caso. Da amiga, notícias em âmbito interestadual, dos adolescentes, breves notas em jornal policial da cidade onde ocorreram os fatos. Deste modo, fica evidente o quanto o jornalismo faz parte de uma complexa rede de interpretação, representação e disseminação de opiniões hegemônicas e que contribui para a tecedura e perpetuação de noções classistas e racistas (Pereira, 2009).

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A mídia 'fala' de um lugar social localizado, que mantém relação com o contexto político e cultural de seus interlocutores. Logo, é por meio de discursos e tendências supostamente aceitas e compartilhadas pela maioria da população que as notícias são construídas (Pereira, 2009).

De acordo com estatísticas publicadas recentemente (Waiselfisz, 2014; 2015; 2016) os homicídios representam, atualmente, a principal causa da mortalidade juvenil quando comparados a outros dois elementos que compõem a categorização de 'causas externas' da morte, segundo o CID-10: o suicídio e os acidentes de trânsito. Com base nos dados, pode-se afirmar que a juventude é a principal vítima da violência homicida no Brasil, como podemos observar a partir da análise feita no Mapa da Violência 2014: Os Jovens do Brasil, quando se afirma que: "na população não jovem só 2,0% dos óbitos foram causados por homicídio, entre os jovens os homicídios foram responsáveis por 28,8% das mortes acontecidas no período 1980 a 2012" (Waiselfisz, 2014, p. 25). Além disso, "observa-se um aumento das taxas de homicídio, tanto entre jovens negros como entre jovens brancos, em praticamente todas as regiões." (Presidência da República, 2014, p. 28).

 

 

 

LINK DO ARTIGO COMPLETO : http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2017000200007

 

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